A Portela voou — literalmente — e a ANAC não achou graça
Na noite de 15 de fevereiro, um superdrone de oito hélices carregou um dançarino da comissão de frente da Portela por 40 segundos na Sapucaí. A ANAC notificou a escola dois dias depois.

Na noite de 15 de fevereiro de 2026, enquanto a Portela tomava a Marquês de Sapucaí, algo diferente chamou a atenção na comissão de frente da escola: um dançarino subiu aos ares. Não era ilusionismo. Não era cenografia elaborada com fios. Era um drone — um superdrone de oito hélices — carregando, literalmente, um integrante do elenco em plena avenida.
O personagem era o Negrinho do Pastoreio, figura do folclore gaúcho que representa escravidão, sofrimento e, por fim, libertação espiritual. A escola homenageava a identidade negra no Rio Grande do Sul, e a escolha não poderia ter sido mais simbólica: o personagem que nunca pôde ser livre, finalmente voando. O voo durou cerca de 40 segundos. Aconteceu quatro vezes durante o desfile. Cada bateria do drone tinha autonomia de cinco minutos, e entre as apresentações o equipamento era recarregado nos bastidores.
Foi bonito. Foi impactante. E foi ilegal.
No dia 16 de fevereiro, a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) enviou um ofício à Portela e à LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) pedindo esclarecimentos sobre a operação. A escola tem dez dias para apresentar o modelo do equipamento, número de série, comprovante de registro e os dados do piloto responsável.
O que diz a regulamentação
Vale lembrar que o uso de drones no Brasil é regulamentado pelo RBAC-E nº 94, publicado em 2017 pela própria ANAC. E o regulamento é claro em pelo menos dois pontos centrais que a operação da Portela violou.
Primeiro: é expressamente proibido transportar pessoas, animais ou artigos perigosos a bordo de drones. A norma foi desenhada justamente para evitar riscos tanto a quem está embarcado quanto a quem está no chão.
Segundo: o operador deve manter distância mínima de 30 metros horizontais de outras pessoas durante o voo. Na Sapucaí, com a avenida lotada de passistas, músicos, alegorias e espectadores, essa margem simplesmente não existe.
A ANAC foi direta em sua nota: há risco sério de acidentes, incluindo fatalidades, em operações como essa.
Uma cena que resume um paradoxo
O que aconteceu no desfile da Portela é, ao mesmo tempo, genial e temerário. Genial porque a ideia de usar um drone para simular o voo do Negrinho do Pastoreio é daquelas soluções criativas que o Carnaval sabe produzir melhor do que qualquer outro espetáculo do mundo. Temerário porque foi feito sem autorização, em espaço aéreo repleto de pessoas, com uma vida humana a bordo.
Não é de se surpreender que a ANAC tenha reagido. O uso de drones em eventos com aglomeração de pessoas já era um ponto sensível bem antes desse episódio. A regulamentação brasileira, por mais que ainda tenha lacunas, é explícita neste ponto: multidões e drones não combinam sem planejamento rigoroso e autorização prévia.
O que surpreende, talvez, é que isso tenha chegado tão longe dentro da produção da Portela sem que alguém levantasse a questão regulatória. A operação envolveu baterias especiais de cinco minutos, quatro ciclos de voo, recarga nos bastidores e um piloto operando remotamente. Isso não é improviso — é planejamento. E em algum momento desse planejamento, a questão legal deveria ter sido colocada sobre a mesa.
Não é a primeira vez
Esse não é o primeiro caso em que o Carnaval e os drones entram em rota de colisão com a regulamentação. Em edições anteriores, escolas de samba já usaram drones para filmagem aérea — o que não é proibido em si, desde que respeitadas as regras de distância e altitude. Mas transportar uma pessoa é um nível completamente diferente de operação.
O que a Portela fez se enquadra, na prática, em uma categoria que a regulamentação mundial mal começou a discutir: os chamados drones tripulados, ou eVTOLs (electric Vertical Take-Off and Landing — em português, veículos elétricos de decolagem e pouso vertical). São aeronaves como o Joby Aviation e o Wisk Aero, que passam por processos de certificação rigorosíssimos antes de sequer pensar em levantar um passageiro do chão.
Um superdrone de oito hélices, montado para um desfile de Carnaval, não passou por nada disso.
O que vem por aí
A notificação da ANAC não necessariamente significa punição imediata. O órgão pediu esclarecimentos, e a Portela tem prazo para responder. Dependendo da documentação apresentada — registro do equipamento, habilitação do piloto, comprovante de que a operação foi avaliada de alguma forma — o desfecho pode variar.
Mas o episódio levanta uma questão que vai além desse desfile específico: o Carnaval, como maior evento de massa do Brasil, precisa urgentemente de um protocolo claro para o uso de drones. Os espetáculos estão ficando cada vez mais elaborados, a tecnologia avança, e as escolas vão continuar buscando inovar. Basta ver o que aconteceu no próprio Réveillon de Copacabana, semanas antes, com 1.200 drones sobrevoando a praia durante o set do DJ Alok.
A diferença entre o que a Portela fez e o que seria permitido é, em muitos casos, uma questão de planejamento, antecedência e diálogo com os órgãos regulatórios. A ANAC tem uma oportunidade aqui: em vez de apenas notificar, poderia usar o caso para construir um guia específico para eventos culturais de grande porte — algo que a comunidade de drones no Brasil certamente apoiaria.
Por enquanto, o Negrinho do Pastoreio voou. A ANAC não voou junto — mas está de olho.
Fontes: CNN Brasil | Poder360 | Diário do Rio de Janeiro
Artigos relacionados
Copa do Mundo 2026 vai ter caçadores de drones protegendo os estádios
O Departamento de Segurança Interna dos EUA contratou a Fortem Technologies para proteger as 11 sedes americanas da Copa do Mundo 2026 com o sistema DroneHunter, que captura drones em pleno voo usando redes.
DJI está banida nos EUA — e o que isso significa para o mundo dos drones
Em dezembro de 2025, a FCC adicionou a DJI à sua lista de restrições por segurança nacional. Novos modelos não podem mais ser importados ou vendidos nos Estados Unidos.
Europa quer usar redes 5G para detectar drones — e vai gastar €400 milhões nisso
Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia apresentou um plano ambicioso de segurança anti-drone que inclui o uso de infraestrutura 5G como radar distribuído, registro obrigatório e €400 milhões em investimentos.


