Europa quer usar redes 5G para detectar drones — e vai gastar €400 milhões nisso

Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia apresentou um plano ambicioso de segurança anti-drone que inclui o uso de infraestrutura 5G como radar distribuído, registro obrigatório e €400 milhões em investimentos.

Lucas Buzzo 5 min de leitura
Europa quer usar redes 5G para detectar drones — e vai gastar €400 milhões nisso

Por muito tempo, o debate europeu sobre drones girou em torno de como facilitar o uso deles — simplificar regras, abrir espaço aéreo, incentivar a indústria. O tom de 2026 é diferente. A pergunta que está dominando as pautas de Bruxelas agora não é como usar drones, mas como se defender deles.

Em 11 de fevereiro de 2026, a Comissão Europeia apresentou um plano de ação abrangente para enfrentar as ameaças crescentes que os drones representam para a segurança da União Europeia. O documento não é uma resposta especulativa a um risco hipotético: é uma reação a incidentes concretos — sobrevoos não autorizados sobre aeroportos, infrações próximas a infraestruturas críticas, e um contexto geopolítico em que drones passaram a ser protagonistas de conflitos armados a menos de 2.000 quilômetros das fronteiras europeias.

O problema que a Europa está tentando resolver

O que pouca gente percebe é que a proliferação de drones criou um problema de segurança que os sistemas tradicionais de defesa aérea simplesmente não foram projetados para resolver. Radares convencionais detectam aviões. Mísseis antiaéreos interceptam aeronaves de porte significativo. Mas um drone de consumo de 300 gramas, voando a 50 metros de altitude numa área urbana densa, é praticamente invisível para a maioria dos sistemas de defesa existentes.

E o risco é real. Na Europa, já foram documentados sobrevoos de drones sobre reatores nucleares, prisões, bases militares e estádios. Na guerra na Ucrânia — que, geograficamente, acontece na vizinhança imediata da UE —, drones de baixo custo se provaram capazes de causar danos significativos a infraestruturas estratégicas.

O plano da Comissão parte desse diagnóstico para propor respostas concretas.

A ideia que mais chama atenção: 5G como radar

A medida mais inovadora do plano é, sem dúvida, a proposta de usar a infraestrutura de redes 5G para detectar drones. A lógica é elegante: a Europa já está investindo bilhões em cobertura 5G. As antenas que estão sendo instaladas em cidades, rodovias e fronteiras para conectar pessoas e dispositivos poderiam, com software específico, funcionar como uma rede de radar distribuída — detectando objetos voadores em baixa altitude que os sistemas convencionais não conseguem identificar.

A Comissão foi direta na formulação: "Os drones podem ser detectados transformando nossas antenas 5G numa capacidade de radar distribuída. É uma tecnologia já existente cuja implementação na Europa é urgente."

Isso não exige construir nova infraestrutura do zero. Exige adaptar o que já existe — uma proposta economicamente mais viável e politicamente mais palatável do que um sistema inteiramente novo.

€400 milhões e um pacote regulatório completo

O plano vem acompanhado de números concretos. A Comissão vai mobilizar €400 milhões para compra de drones pelos Estados-membros, divididos em:

  • €150 milhões para segurança de fronteiras — aquisição de equipamentos de vigilância, incluindo operações conjuntas com a Frontex
  • €250 milhões para compra direta de sistemas de drones pelos países-membros

Além disso, €1 bilhão do Fundo Europeu de Defesa já havia sido destinado a pesquisa e desenvolvimento em drones, com €200 milhões adicionais planejados para os próximos dois anos.

O cronograma regulatório também foi detalhado:

  • 2º trimestre de 2026: Hackathon focado em ameaças de balões e objetos de baixa altitude
  • 3º trimestre de 2026: Proposta do Drone Security Package — com registro obrigatório de todos os operadores de drones acima de 100 gramas
  • 4º trimestre de 2026: Lançamento de uma certificação europeia para drones civis, uma espécie de "marca UE" para equipamentos que atendam a padrões de segurança

Para 2027, está previsto um programa piloto para vigilância de fronteiras marítimas usando drones subaquáticos e de superfície.

O que muda na prática

Se o Drone Security Package for aprovado, o impacto sobre a comunidade de entusiastas e operadores profissionais de drones na Europa será significativo. O limite de 100 gramas é baixo — inclui praticamente qualquer drone que não seja um brinquedo de plástico. Drones populares como o DJI Mini 3 Pro, por exemplo, pesam cerca de 249 gramas e já passariam a exigir registro obrigatório do operador.

Isso não é necessariamente ruim. Registros bem estruturados ajudam a rastrear equipamentos envolvidos em incidentes, criam responsabilidade sobre quem opera no espaço aéreo compartilhado, e tendem a reduzir o número de voos irresponsáveis por operadores que sabem que não há consequências.

O ponto de tensão, sempre, é o equilíbrio entre segurança e liberdade de uso — um debate que o Brasil também está travando com seu RBAC 100.

Um sinal dos tempos

Há cinco anos, a principal preocupação europeia com drones era como integrá-los ao tráfego aéreo para viabilizar entregas e serviços. Hoje, a prioridade é como impedí-los de ser usados como ameaça.

Isso não significa que o lado civil da equação foi abandonado — a UE continua investindo em mobilidade aérea urbana e na indústria de drones. Mas o contexto geopolítico mudou de forma irreversível. Drones viraram arma. E a Europa precisou aceitar que proteger o espaço aéreo de baixa altitude agora faz parte da defesa nacional.

A questão que fica é se as medidas propostas vão avançar na velocidade necessária. Regulamentações europeias costumam levar tempo — propostas, consultas públicas, debates parlamentares, implementação nos países-membros. Enquanto isso, a tecnologia de drones continua evoluindo. O plano da Comissão é um passo na direção certa. Se vai ser rápido o suficiente, só o tempo vai dizer.


Fontes: ECO/Sapo | Pplware | Comissão Europeia

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